quinta-feira, 25 de junho de 2026

Pérolas aos Porcos - uma análise

Pérolas aos Porcos

Por Abilio Machado 

Há uma expressão que atravessou séculos e continua desconcertantemente atual: "não lançar pérolas aos porcos". Ela nasce das palavras de Jesus, registradas em Mateus 7:6:


"Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem."


À primeira vista, o texto pode parecer duro. Contudo, sua intenção não é ensinar desprezo pelas pessoas, mas discernimento sobre onde investimos aquilo que temos de mais precioso.


As pérolas representam tudo aquilo que possui valor: a sabedoria adquirida com lágrimas, a sensibilidade da arte, o conhecimento construído com esforço, a confiança oferecida a alguém, o amor sincero, a fé amadurecida e até o tempo, esse bem que jamais recuperamos.


Os porcos, por sua vez, não simbolizam pessoas inferiores, mas aqueles que, naquele momento da vida, são incapazes de reconhecer o valor do que recebem. Para um porco, uma pérola não passa de uma pedra. Ele não distingue seu brilho, sua raridade ou seu preço. Pior ainda: pode pisoteá-la e, sentindo-se incomodado, voltar-se contra quem a ofereceu.


A psicologia ensina que cada pessoa só consegue acolher aquilo para o qual está emocionalmente preparada. Não adianta oferecer maturidade a quem escolheu permanecer na superficialidade, nem entregar confiança a quem fez da deslealdade um hábito. Quando insistimos nisso, frequentemente transformamos generosidade em frustração.


A teologia complementa esse pensamento ao mostrar que até Jesus sabia discernir quando falar, quando silenciar e quando simplesmente seguir caminho. Nem todos estavam prontos para ouvir. Nem todos desejavam compreender. O Reino de Deus jamais foi imposto; ele sempre foi apresentado àqueles que tinham ouvidos para ouvir.


Talvez uma das maiores demonstrações de sabedoria espiritual seja compreender que nem todo terreno está pronto para receber sementes, assim como nem toda pessoa está preparada para receber pérolas.


Isso não significa endurecer o coração, tornar-se arrogante ou deixar de amar. Significa apenas aprender que amor também é discernimento. Há momentos em que proteger aquilo que Deus confiou às nossas mãos é um ato de responsabilidade.


Se alguém não valoriza sua amizade, sua dedicação, sua arte, sua escuta, sua experiência ou sua presença, talvez o problema não esteja na qualidade da pérola, mas na incapacidade de quem a recebeu de reconhecer seu valor.


Existem pessoas que olharão para uma pérola e enxergarão apenas uma pedra. Outras, porém, verão nela um tesouro.


Por isso, não desperdice aquilo que há de mais precioso em você tentando convencer quem decidiu permanecer cego ao seu brilho. Guarde suas pérolas para aqueles que sabem contemplar sua beleza, honrar seu valor e agradecer pelo privilégio de recebê-las.


Porque Deus não nos chamou para desperdiçar tesouros, mas para administrá-los com sabedoria.


Referência bíblica: Mateus 7:6.


Referência bibliográfica:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.


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A Psicologia da Vantagem: Quando o Mito do "Esperto" Mora Dentro de Nós

 

O "esperto" não é inteligente porque leva vantagem. Ele apenas é habilidoso em empurrar para os outros a conta dos seus privilégios. Inteligência constrói pontes. Esperteza derruba cercas para passar primeiro. Uma análise ...

A Psicologia da Vantagem: Quando o Mito do "Esperto" Mora Dentro de Nós


Por Abilio Machado


Uma propaganda de cigarros dos anos 1970 atravessou décadas e deixou uma marca curiosa na cultura brasileira. A frase era simples:


"Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também." (Gerson - ex jogador da seleção - Campanha de cigarros Vila Rica- 1976)


O que deveria vender cigarros acabou se transformando em uma expressão popular que passou a representar uma forma de pensar e agir. Nascia aquilo que ficou conhecido como "Lei de Gérson".


Mas será que uma propaganda tem mesmo o poder de mudar uma sociedade?


A psicologia nos mostra que não.


Nenhuma frase, por si só, cria um comportamento coletivo. Ela apenas encontra espaço em algo que já existe. A propaganda não inventou a busca pela vantagem; apenas deu voz a um desejo humano antigo: ganhar mais gastando menos esforço.


Afinal, quem nunca sentiu a tentação de encontrar um atalho?


Quem nunca pensou em furar uma fila, estacionar rapidamente em local proibido porque seria "só um minutinho", ou aproveitar uma brecha para obter algum benefício?


O problema não está apenas nos grandes atos de corrupção que ocupam os noticiários. Muitas vezes, a raiz da corrupção encontra-se nas pequenas concessões éticas que fazemos diariamente.


Recentemente, chamou a atenção o caso de consumidores que retiravam rótulos de produtos em supermercados para procurar figurinhas promocionais, deixando mercadorias danificadas para trás. O prêmio era pequeno. O prejuízo era coletivo.


E ali estava novamente a mesma lógica psicológica:


"Se eu posso ganhar alguma coisa, por que não?"


Essa pergunta aparentemente inocente revela um mecanismo importante estudado pela psicologia social: a racionalização.


A racionalização ocorre quando encontramos justificativas para comportamentos que, no fundo, sabemos serem inadequados.


"Todo mundo faz."


"Não vai fazer falta."


"Ninguém será prejudicado."


"A empresa é rica."


Esses pensamentos funcionam como analgésicos morais. Eles aliviam a culpa e permitem que a pessoa preserve uma imagem positiva de si mesma.


O mais interessante é que raramente alguém se considera desonesto.


Quase sempre a pessoa acredita estar apenas sendo inteligente.


A linha entre inteligência e oportunismo torna-se cada vez mais tênue.


O problema é que sociedades não são construídas apenas por leis. Elas são construídas por valores compartilhados.


Quando a vantagem pessoal passa a valer mais do que a responsabilidade coletiva, o tecido social começa a se desgastar.


A confiança desaparece.


As relações tornam-se defensivas.


As pessoas passam a acreditar que somente os ingênuos seguem regras.


E quando isso acontece, a esperteza deixa de ser uma exceção para se tornar uma expectativa.


Na clínica psicológica observamos algo semelhante. Muitos conflitos interpessoais nascem justamente da incapacidade de considerar o outro. O indivíduo passa a enxergar apenas seus desejos imediatos, suas necessidades e seus ganhos.


A maturidade emocional, por outro lado, exige um movimento contrário.


Exige compreender que viver em sociedade significa aceitar limites.


Nem tudo que podemos fazer devemos fazer.


Nem toda vantagem é legítima.


Nem todo ganho compensa a perda da integridade.


Talvez a verdadeira pergunta não seja por que algumas pessoas levam vantagem.


A pergunta mais importante é:


O que estamos ensinando às próximas gerações quando celebramos a esperteza e ridicularizamos a honestidade?


A resposta para essa questão pode dizer muito mais sobre o futuro do país do que qualquer campanha publicitária já foi capaz de dizer.


Porque uma sociedade não se transforma quando aprende a ganhar mais.


Ela se transforma quando aprende a conviver melhor.


E isso começa quando cada um de nós decide que o caráter vale mais do que qualquer vantagem.

Lendo que:

O "Esperto" e o Idiota: Quem Realmente Está Levando Vantagem?

Porque existe uma contradição interessante: o sujeito que fura a fila, arranca o rótulo da garrafa no supermercado, cola na prova, estaciona na vaga do idoso ou tenta enganar o sistema acredita ser mais inteligente que os demais. Porém, quando milhões fazem a mesma coisa, todos passam a viver numa sociedade mais desconfiada, mais burocrática, mais cara e mais injusta. E o mais terrível é quando o indivíduo que enganou alguém reclama de quando observou outro fazer ou até mesmo quando é feito com ele, quase como se o cósmico lhe desse a lei do retorno.

Quando você utiliza a lei de Gerson seu ganho individual produz uma perda coletiva... Pense sobre isso.


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Escrevendo estas linhas sentado no banco da praça, observando o movimento apressado das pessoas numa manhã fria. Entre passos rápidos, buzinas e olhares distraídos, fiquei pensando como a pressa por ganhar alguma coisa às vezes nos faz perder justamente aquilo que temos de mais valioso: a capacidade de sermos humanos uns com os outros.


Referência Bibliográfica


Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando a Fé se Torna Ferramenta de Poder - Uma reflexão sobre um discurso de Adolf Hitler em 1922

 


Quando a Fé se Torna Ferramenta de Poder

Uma reflexão sobre um discurso de Adolf Hitler em 1922


Há alguns dias, ao revisitar antigas publicações nas redes sociais, deparei-me com uma imagem que trazia um trecho atribuído a Adolf Hitler. A frase, inicialmente datada de 1942, despertou minha curiosidade. Ao buscar as fontes históricas, descobri que o discurso é geralmente atribuído a 12 de abril de 1922, em Munique, período em que Hitler ainda não era o líder absoluto da Alemanha, mas um político em ascensão que procurava conquistar espaço, simpatizantes e credibilidade.


Essa diferença de data não é um detalhe irrelevante.


Em 1942, Hitler já governava a Alemanha e a máquina nazista encontrava-se plenamente estabelecida. Em 1922, porém, ele ainda precisava convencer. Precisava atrair adeptos. Precisava construir uma narrativa capaz de mobilizar multidões.


E talvez seja justamente por isso que esse discurso se torna tão importante para compreendermos não apenas a história, mas também os mecanismos psicológicos e sociais que continuam presentes em nosso tempo.


No trecho, Hitler afirma:


"Como um cristão amoroso e como um homem, leio a passagem que nos conta como o Senhor finalmente se ergueu em Sua força e apanhou o azorrague para expulsar do Templo a raça de víboras..."

(Recorte do discurso abaixo)

A primeira impressão pode ser a de um homem profundamente religioso. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela algo diferente: estamos diante de uma sofisticada apropriação da linguagem religiosa para legitimar um projeto político.


Jesus é apresentado como um combatente contra um grupo específico. A narrativa bíblica é retirada de seu contexto original e reinterpretada para sustentar uma visão ideológica contemporânea.


Historicamente, isso é uma distorção.


Jesus expulsou comerciantes do templo por denunciar a corrupção da fé e a exploração dos pobres. O texto bíblico não constitui uma condenação étnica do povo judeu. Pelo contrário: Jesus nasceu judeu, viveu como judeu, frequentava as sinagogas judaicas e seus primeiros seguidores também eram judeus.


Contudo, ao recontar essa passagem, Hitler produz uma inversão narrativa. A crítica espiritual torna-se uma crítica racial. A denúncia da corrupção converte-se em perseguição a um povo.


Esse é um dos mecanismos mais antigos do poder: utilizar símbolos sagrados para legitimar interesses humanos.


Do ponto de vista psicológico, o discurso também revela outro elemento fundamental: a construção do inimigo.


A Alemanha vivia um período de profunda crise após a Primeira Guerra Mundial. Humilhação nacional, desemprego, inflação, insegurança social e instabilidade política alimentavam sentimentos coletivos de medo e ressentimento.


Em contextos assim, líderes carismáticos costumam oferecer respostas simples para problemas complexos.


O roteiro costuma ser previsível:


Existe uma crise.


Existe um culpado.


Existe um líder que identificou o culpado.


Existe uma missão moral para salvar a sociedade.


O discurso de 1922 segue exatamente essa lógica.


Os judeus são apresentados como responsáveis pelos males da civilização. Tornam-se o bode expiatório sobre o qual são projetadas as angústias, os fracassos e os medos de toda uma nação.


Essa estratégia produz um efeito psicológico poderoso.


Quando uma sociedade encontra um culpado externo, ela deixa de olhar para suas próprias contradições. O sofrimento ganha um rosto. A raiva encontra um alvo. A complexidade desaparece.


A partir desse momento, não é mais necessário compreender os problemas. Basta combater o inimigo.


É justamente aí que mora o perigo.


Quando a religião é utilizada para sustentar esse processo, a manipulação torna-se ainda mais eficaz.


A fé oferece pertencimento.


A fé oferece identidade.


A fé oferece sentido.


Por isso, quando líderes políticos conseguem associar seus projetos a símbolos religiosos, criam uma poderosa sensação de legitimidade moral.


O que era apenas uma opinião política passa a parecer uma missão divina.


O adversário deixa de ser apenas alguém que pensa diferente.


Ele passa a ser percebido como uma ameaça ao bem, à verdade e até mesmo a Deus.


A história demonstra que essa mistura entre religião e poder frequentemente produz consequências trágicas.


Não foi apenas o nazismo.


Diversos movimentos ao longo dos séculos utilizaram Deus, a Bíblia, templos, símbolos sagrados e discursos espirituais para justificar perseguições, discriminações e violências.


Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se Hitler acreditava ou não no que dizia.


A pergunta mais importante é outra:


O que acontece quando a fé deixa de ser um caminho de transformação interior e passa a ser utilizada como instrumento de controle social?


O que acontece quando líderes religiosos se tornam agentes políticos?


O que acontece quando a espiritualidade é reduzida a uma ferramenta de convencimento?


O que acontece quando Deus é convocado para legitimar preconceitos humanos?


São perguntas desconfortáveis.


Mas necessárias.


A verdadeira espiritualidade não produz ódio.


Não necessita de inimigos.


Não se fortalece pela exclusão.


Não cresce pela perseguição.


Toda fé autêntica conduz ao encontro da dignidade humana, ainda que não elimine diferenças de pensamento.


Talvez o maior ensinamento desse episódio histórico seja justamente este: devemos desconfiar sempre que alguém utilizar a linguagem religiosa para estimular medo, hostilidade ou divisão.


Porque, muitas vezes, aquilo que se apresenta como defesa da fé não passa de uma tentativa de conquistar poder.


E quando a fé se torna instrumento de manipulação, o sagrado deixa de iluminar a consciência e passa a servir aos interesses da dominação.


A história já nos mostrou o preço dessa escolha.


A questão é saber se aprendemos algo com ela.


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Por Abilio Machado – Psicoarteterapeuta

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O recorte do discurso postado por mim a tempos :

Reflita

O que este discurso e sua religião têm em comum?

"Como um Cristão amoroso e como um homem, leio a passagem que nos conta como o Senhor finalmente se ergueu em Sua força e apanhou o azorrague para expulsar do Templo a raça de víboras. Como foi esplêndida a sua luta em defesa do mundo e contra o veneno judeu.

Hoje, depois de 2 mil anos, é com muita emoção que reconheço, mais profundamente do que nunca, o fato de que foi em nome disso que Ele teve que derramar Seu sangue na cruz.

Como cristão tenho o dever de não me deixar enganar, tenho o dever de lutar pela verdade e pela justiça;

E como homem, tenho o dever de zelar para que a sociedade humana não sofra o mesmo colapso catastrófico que sofreu a civilização do mundo antigo 2 mil anos atrás – uma civilização que foi levada à ruína por esse mesmo povo judeu."

— Discurso de Adolf Hitler em 12 de abril de 1942 (correção 1922), em Munique.



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Referências


BAYNES, Norman H. (Org.). The Speeches of Adolf Hitler: April 1922–August 1939. Volume I. New York: Oxford University Press, 1942.


FLOOD, Charles Bracelen. Hitler: The Path to Power. Boston: Houghton Mifflin, 1989.


GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus.


EVANS, Richard J. A Chegada do Terceiro Reich. São Paulo: Planeta.


KERSHAW, Ian. Hitler: 1889-1936 – Hubris. São Paulo: Companhia das Letras.


Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

terça-feira, 23 de junho de 2026

VOCÊ NÃO É O ECO DAS VOZES ALHEIAS




VOCÊ NÃO É O ECO DAS VOZES ALHEIAS


Por Abilio Machado


Há uma prisão invisível que aprisiona mais pessoas do que grades de ferro. Ela não tem muros, não tem cadeados e não aparece nos mapas. Ainda assim, limita sonhos, enfraquece identidades e rouba a paz de muitos corações.


Essa prisão chama-se dependência da aprovação alheia.


Desde cedo aprendemos a ouvir vozes. Algumas nos fortalecem. Outras nos ferem profundamente.


Uma criança desenha algo com entusiasmo e escuta: — "Está feio." — "Você não leva jeito para isso."


Um adolescente compartilha um sonho e ouve: — "Isso não vai dar certo." — "Você não tem capacidade."


Um adulto inicia um projeto, escreve um livro, muda de carreira ou simplesmente tenta ser quem realmente é, e logo surgem os críticos de plantão, especialistas em destruir aquilo que jamais tiveram coragem de construir.


Com o tempo, muitas pessoas passam a viver como espelhos quebrados. Não se enxergam mais por aquilo que são, mas pelos reflexos fragmentados que recebem dos outros.


O problema é que elogios e críticas podem se tornar igualmente perigosos.


A psicologia nos ensina que uma identidade saudável nasce quando o indivíduo desenvolve uma percepção interna de valor. Quando alguém depende exclusivamente dos elogios para sentir-se importante, torna-se emocionalmente refém das opiniões externas. Sua autoestima sobe e desce conforme os aplausos recebidos.


Mas quem vive pelos aplausos inevitavelmente sofrerá quando surgirem as vaias.


Por outro lado, permitir que críticas definam quem somos também é um caminho de sofrimento. Nem toda crítica é verdadeira. Muitas vezes ela revela mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe.


Há pessoas que criticam porque invejam.


Outras porque têm medo.


Algumas porque projetam nos outros suas próprias frustrações.


E existem aquelas que simplesmente não suportam ver alguém caminhando enquanto elas permanecem paradas.


A questão não é ignorar completamente o que os outros dizem. Críticas podem conter ensinamentos valiosos. Elogios podem ser expressões legítimas de reconhecimento.


O perigo está em transformar qualquer dessas vozes em juiz absoluto da própria existência.


Do ponto de vista espiritual, essa reflexão ganha ainda mais profundidade.


Nas Escrituras encontramos homens e mulheres que foram incompreendidos, criticados, perseguidos e até ridicularizados.


Moisés foi questionado.


Davi foi subestimado.


Jeremias foi rejeitado.


Paulo foi acusado.


E até Jesus foi chamado de louco, blasfemo e impostor.


Se o próprio Cristo, sendo quem era, não escapou dos julgamentos humanos, por que imaginamos que conseguiremos agradar a todos?


A psicoteologia nos lembra que nossa identidade não nasce da opinião das multidões. Ela nasce do encontro entre quem somos e aquilo que Deus vê em nós.


Enquanto os homens observam aparências, Deus contempla intenções.


Enquanto muitos enxergam fracassos, Deus vê possibilidades.


Enquanto alguns apontam limitações, Deus reconhece potencialidades ainda não desenvolvidas.


Talvez uma das maiores maturidades da vida seja aprender a ouvir sem se escravizar.


Receber um elogio sem se tornar dependente dele.


Receber uma crítica sem permitir que ela destrua sua essência.


Porque existe uma diferença entre corrigir comportamentos e condenar identidades.


Você pode ter cometido erros sem ser um erro.


Pode ter fracassado sem ser um fracasso.


Pode estar ferido sem estar derrotado.


Pode estar em construção sem estar perdido.


No final das contas, a pergunta mais importante não é:


"O que as pessoas pensam sobre mim?"


Mas sim:


"Quem estou me tornando diante de Deus, diante da minha consciência e diante da vida?"


Quando essa resposta encontra paz dentro de nós, os elogios deixam de nos embriagar e as críticas deixam de nos definir.


Então compreendemos uma verdade libertadora:


Você não é aquilo que falam a seu respeito.


Você não é aquilo que imaginam sobre você.


Você não é o eco das vozes alheias.


Você é uma história em construção, conhecida profundamente por Deus, lapidada pela experiência e sustentada por uma dignidade que nenhuma crítica consegue destruir.



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Escrevendo estas linhas, sentado silenciosamente no último banco da igreja, observava como a luz atravessava os vitrais sem pedir permissão à escuridão. Foi então que pensei: a luz não precisa da aprovação das sombras para continuar brilhando. Talvez nós também não precisemos.


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Abilio Machado – Psicoarteterapeuta

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Referência bibliográfica:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A semana começou...

 


**Interno:** O seu desejo de controlar o futuro, a ansiedade com os prazos de amanhã e a pressa mental que rouba a qualidade da sua execução agora.


**Externo:** O início de uma nova semana, o relógio que avança, as pendências acumuladas e as incertezas dos próximos dias.


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### A Mensagem do Dia (22 de Junho): A Ilusão do Amanhã


> "Não permitas que o futuro te perturbe. Irás encontrá-lo, se tal for necessário, munido das mesmas armas da razão com que hoje enfrentas o presente."

> — **MARCO AURÉLIO, *MEDITAÇÕES*, 7.8**


### A Autópsia


Hoje é **22 de junho**. O fato físico é que a sua mente já está tentando viver na quarta ou na quinta-feira, calculando cenários, antecipando problemas e sofrendo por decisões que você ainda não precisa tomar. O erro neurológico da mente humana é a dispersão de energia: acreditamos que sofrer por antecipação é uma forma de preparação. Não é. É apenas desgaste. As ferramentas que você tem para resolver os problemas de hoje — a sua lógica, a sua capacidade analítica e a sua estabilidade — são exatamente as mesmas que você usará amanhã.


### O Julgamento


O erro comum no início de uma semana é olhar para o volume total de demandas como uma montanha esmagadora. O julgamento correto do **Hegemonikon** é fatiar a realidade. O amanhã não existe e o ontem já morreu. O futuro só tem o poder de causar ansiedade se você permitir que ele invada o seu presente. Se você for capaz de isolar a hora atual e aplicar nela uma execução limpa e cirúrgica, perceberá que nenhuma circunstância isolada é capaz de quebrar a sua Cidadela Interior.


### A Virtude Exigida


**Temperança (e Sabedoria Prática).** A disciplina de puxar as rédeas da imaginação e manter a mente ancorada estritamente no que pode ser executado nos próximos minutos.


### O Comando de Ação: O Protocolo de Contenção Semanal


Para iniciar esta semana com a mente blindada contra a ansiedade, execute este alinhamento de conduta:


1. **Isole o Escopo de Hoje:** Ao olhar para a sua lista de pendências, silencie o ruído do "fim da semana". Pergunte-se: *"Qual é o passo exato e factual que preciso dar agora?"*. Foque apenas no próximo bloco de execução.

2. **Confie na sua Razão:** Se a mente começar a projetar cenários catastróficos sobre prazos ou dificuldades futuras, responda com o comando de Marco Aurélio: *"Eu tenho a lógica e a capacidade necessárias para lidar com o agora. Quando o futuro chegar, usarei a mesma estrutura técnica"*.

3. **Execute sem Pressa Mental:** A pressa é o sintoma de uma mente que quer estar em outro lugar. Trabalhe no ritmo constante da precisão, não no ritmo caótico da urgência psicológica.


**O seu comando para hoje:** O futuro não pode ser resolvido hoje, mas o presente pode ser executado com excelência. Domine a sua atenção, blinde a sua mente e faça o que deve ser feito agora.


**A semana começou. Faça o seu dever.**

NÃO É INDIFERENÇA. É MATURIDADE

NÃO É INDIFERENÇA. É MATURIDADE.


Há pessoas que olham para a nossa mudança e dizem:

"Tu já não és o mesmo."

E talvez tenham razão.

Porque a vida ensina.

O tempo transforma.

As cicatrizes explicam aquilo que as palavras nunca conseguiram explicar.

Não é que o coração tenha ficado frio.

Não é que a consideração tenha desaparecido.

Não é que tenhamos deixado de nos importar.

Acontece que, depois de tantas decepções, aprendemos que nem tudo merece a nossa energia.

Chega um momento em que deixamos de correr atrás de quem nunca caminhou na nossa direcção.

Deixamos de insistir em conversas unilaterais.

Deixamos de mendigar atenção, carinho, respeito e presença.

Porque a reciprocidade não deve ser implorada.

Deve ser natural.

O amadurecimento tem esta característica curiosa:

Ele ensina-nos a valorizar a paz mais do que a aprovação dos outros.

Ensina-nos a distinguir companhia de conveniência.

Presença de interesse.

Amor de dependência.

E, aos poucos, começamos a desapegar-nos daquilo que apenas ocupava espaço na nossa vida sem acrescentar valor.

Algumas pessoas chamam isso de frieza.

Eu chamo de amor-próprio.

Porque crescer também significa aprender a fechar portas que já não conduzem a lugar nenhum.

Nem toda distância é falta de afecto.

Às vezes, é apenas a decisão de não permanecer onde o esforço vem de um lado e a indiferença do outro.

A vida fica mais leve quando entendemos uma verdade simples:

Quem quer ficar, encontra motivos.

Quem não quer, encontra desculpas.

E quem é recíproco nunca nos faz sentir sozinhos numa relação que deveria ser construída a dois.

✍🏾  #Reciprocidade #AmorProprio #Maturidade #LicoesDaVida #Relacionamentos #CrescimentoPessoal #Consciencia #Vida #Reflexao 

domingo, 21 de junho de 2026

As Brincadeiras que Atravessaram os Séculos: Um Patrimônio da Infância e do Desenvolvimento Humano

 


As Brincadeiras que Atravessaram os Séculos: Um Patrimônio da Infância e do Desenvolvimento Humano


Por Abilio Machado – Psicanalista e Psicoarteterapeuta


Muito antes da existência dos videogames, dos celulares e dos brinquedos industrializados, crianças de diferentes povos já corriam, pulavam, competiam, imaginavam e aprendiam através das brincadeiras. Em cada cultura, surgiram formas particulares de diversão que, além de entreter, transmitiam conhecimentos, fortaleciam vínculos sociais e preparavam os pequenos para os desafios da vida adulta.


Curiosamente, muitas dessas brincadeiras atravessaram séculos, sobreviveram a guerras, mudanças culturais e revoluções tecnológicas. Ainda hoje podemos encontrar crianças brincando de amarelinha, soltando pipa ou disputando uma partida de dominó em diversas partes do mundo.


Embora algumas origens históricas sejam objeto de debate entre pesquisadores, o card apresentado reúne versões populares sobre o nascimento de várias brincadeiras clássicas. Mais importante do que determinar uma origem absoluta é perceber como elas revelam algo profundamente humano: a necessidade de brincar.


Amarelinha – Ecos da Roma Antiga


A amarelinha é frequentemente associada à Roma Antiga. Há relatos de que soldados romanos utilizavam percursos desenhados no chão para treinar equilíbrio, coordenação e resistência física. Com o tempo, essas práticas teriam sido adaptadas pelas crianças em forma de brincadeira.


Ao pular em um pé só, alternando movimentos e planejando o percurso, a criança trabalha:


Equilíbrio corporal;


Coordenação motora;


Noção espacial;


Atenção e concentração;


Controle dos impulsos.



A amarelinha ensina que cada etapa precisa ser percorrida antes de alcançar o "céu", uma metáfora curiosamente semelhante aos processos de amadurecimento humano.


Dominó – A Sabedoria Estratégica da China


O dominó possui registros históricos ligados à China, onde já era utilizado há muitos séculos. Mais tarde, espalhou-se pelo mundo, tornando-se um dos jogos de mesa mais populares.


Embora pareça simples, exige habilidades sofisticadas:


Planejamento;


Memória operacional;


Raciocínio lógico;


Antecipação de movimentos;


Tolerância à frustração.



Quando uma criança aprende a esperar sua vez e pensar estrategicamente, está desenvolvendo competências importantes para a vida social e acadêmica.


Peteca – Um Presente dos Povos Indígenas Brasileiros


A peteca é uma das maiores contribuições culturais dos povos indígenas do Brasil para o universo das brincadeiras. Muito antes da chegada dos europeus, diversas etnias já utilizavam versões artesanais feitas com penas e fibras naturais.


Sua prática favorece:


Coordenação motora ampla;


Agilidade;


Reflexos;


Percepção visual;


Trabalho em equipe.



Além disso, simboliza a riqueza cultural dos povos originários e sua profunda relação com a natureza.


Pipa – A Arte de Fazer o Vento Brincar


A tradição atribui à China o surgimento das primeiras pipas há mais de dois mil anos. Inicialmente utilizadas para observações militares e transmissão de sinais, acabaram conquistando também o universo infantil.


Soltar pipa envolve:


Planejamento;


Coordenação motora fina;


Compreensão intuitiva do vento;


Paciência;


Perseverança.



Existe também um aspecto simbólico encantador: a criança aprende que não controla o vento, mas pode aprender a dialogar com ele.


Bolinhas de Gude – Pequenos Universos nas Mãos


Diversas civilizações antigas utilizaram pequenas esferas em jogos infantis. O card associa sua origem ao Egito, onde objetos semelhantes foram encontrados em escavações arqueológicas.


As bolinhas de gude desenvolvem:


Precisão motora;


Coordenação olho-mão;


Estratégia;


Capacidade de previsão;


Controle emocional.



Cada jogada exige cálculo, observação e adaptação, habilidades fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.


Ioiô – O Movimento que Retorna


O ioiô possui uma história complexa e multicultural, mas frequentemente é associado às antigas tradições asiáticas.


O simples movimento de lançar e recolher exige:


Coordenação bilateral;


Ritmo;


Persistência;


Aprendizagem por tentativa e erro.



Talvez por isso o ioiô seja uma metáfora perfeita da vida: às vezes nos afastamos para depois retornar mais experientes.


Jogo da Velha – Estratégia em sua Forma Mais Pura


Há registros de jogos semelhantes ao jogo da velha em civilizações antigas, incluindo o Egito.


Embora pareça elementar, estimula:


Pensamento estratégico;


Antecipação de consequências;


Planejamento;


Resolução de problemas.



É um excelente exemplo de como uma brincadeira simples pode gerar processos cognitivos complexos.


Queimada – Movimento, Cooperação e Coragem


A queimada possui versões em vários países e culturas. O card relaciona sua popularização ao Reino Unido.


Durante a brincadeira, a criança desenvolve:


Agilidade;


Velocidade;


Atenção dividida;


Cooperação;


Capacidade de lidar com vitórias e derrotas.



Ela aprende que nem sempre permaneceremos no centro do jogo, mas sempre podemos retornar à partida.


Jokenpô – A Psicologia da Escolha


Pedra, papel e tesoura possui raízes históricas ligadas à China e posteriormente difundidas pelo Japão.


Apesar de extremamente simples, envolve:


Tomada de decisão rápida;


Leitura do comportamento do outro;


Aceitação do acaso;


Flexibilidade cognitiva.



É um pequeno laboratório psicológico sobre escolhas, previsões e incertezas.


O Brincar Sob o Olhar da Psicologia


Do ponto de vista psicológico, brincar nunca é apenas brincar.


Enquanto corre, pula, imagina ou compete, a criança está organizando emoções, construindo sua identidade e aprendendo a conviver com o mundo.


Através das brincadeiras ela aprende:


A esperar;


A negociar;


A perder;


A ganhar;


A cooperar;


A criar soluções;


A controlar impulsos;


A lidar com frustrações.



Na psicanálise, o brincar é considerado uma linguagem simbólica da infância. Muitas vezes a criança expressa através do jogo aquilo que ainda não consegue colocar em palavras.


Já sob a perspectiva da psicologia do desenvolvimento, brincar estimula funções executivas essenciais, como memória, atenção, autocontrole e flexibilidade mental.


Na arteterapia, o brincar é uma forma legítima de expressão criativa, permitindo que sentimentos encontrem caminhos seguros para serem vivenciados e compreendidos.


O Perigo de uma Infância Sem Brincadeiras


Vivemos uma época em que as telas ocupam cada vez mais espaço na vida das crianças. Embora a tecnologia tenha seus benefícios, ela não substitui completamente as experiências corporais, sociais e imaginativas proporcionadas pelas brincadeiras tradicionais.


Uma infância empobrecida em movimento, interação e criatividade pode gerar dificuldades em aspectos importantes do desenvolvimento emocional e social.


Por isso, resgatar brincadeiras antigas não é um gesto de nostalgia. É um investimento na saúde mental das novas gerações.


Considerações Finais


Quando uma criança pula amarelinha, solta uma pipa ou disputa uma partida de bolinhas de gude, ela não está apenas repetindo um passatempo antigo. Está participando de uma herança cultural construída por inúmeras gerações ao longo da história humana.


Essas brincadeiras sobreviveram porque respondem a necessidades profundas do desenvolvimento humano: explorar, criar, aprender, pertencer e sonhar.


Talvez por isso continuem encantando crianças de todas as épocas.


No fundo, cada brincadeira é uma pequena escola da vida, onde o corpo aprende movimento, a mente aprende estratégias e o coração aprende a ser humano.



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Abilio Machado

Psicanalista e Psicoarteterapeuta


📷 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado


Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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