A bebida, o silêncio e o altar invisível
Ninguém começa usando drogas querendo perder a vida.
Começa querendo perder a dor.
É curioso como a sociedade gosta de falar das drogas apontando o dedo para a substância, como se ela tivesse pernas, braços e intenção própria. Como se o álcool pulasse sozinho para dentro do copo, como se a garrafa chamasse pelo nome, como se o vício fosse um acidente moral e não um processo humano.
Mas quem escuta de verdade sabe:
ninguém bebe apenas bebida.
Bebe história.
Bebe ausência.
Bebe cansaço.
Bebe silêncios acumulados.
As drogas não entram na vida de alguém por acaso. Elas entram onde algo já estava faltando.
O álcool, por exemplo, é social, educado, aceito. Ele chega sorrindo, abraça, diz “relaxa”, “só hoje”, “você merece”. Ele participa das festas, das confraternizações, das despedidas, dos encontros e até dos velórios. É a droga que a cultura ensinou a amar.
E talvez por isso seja uma das mais traiçoeiras.
No começo, ele solta a língua, desamarra o corpo, anestesia a vergonha. O tímido fala. O triste ri. O cansado esquece. O ferido dorme.
E então alguém diz:
— “Quando bebo, fico mais eu.”
Mas não fica.
Fica menos consciente da dor de não ser quem gostaria de ser.
Do ponto de vista psicológico, o abuso de álcool não é busca de prazer. É tentativa de regulação emocional. É um remendo improvisado para emoções que nunca aprenderam a ser sentidas, nomeadas e atravessadas.
Quem bebe demais, muitas vezes, não sabe o que sente. Só sabe que dói.
E quando dói, o corpo aprende rápido: existe um líquido que cala o barulho interno.
O cérebro registra.
O alívio vira hábito.
O hábito vira necessidade.
A necessidade vira prisão.
E, em silêncio, o prazer vai embora. Fica apenas o medo da falta.
Mas há algo ainda mais profundo acontecendo — algo que a psicologia sozinha toca, mas não esgota.
Existe um vazio espiritual que nenhuma substância preenche.
Não falo de religião. Falo de sentido.
De pertencimento.
De reconciliação com a própria história.
Quando o humano não encontra onde repousar a alma, ele cria altares improvisados. Alguns rezam para o sucesso, outros para o corpo perfeito, outros para o reconhecimento. E muitos, sem perceber, fazem do álcool um consolador químico.
O copo vira oração.
A garrafa, refúgio.
O gole, uma promessa falsa de paz.
É uma espiritualidade distorcida, mas real: algo que promete alívio imediato, cobra caro e nunca salva.
O alcoolismo não começa no fígado. Começa na alma.
O fígado adoece depois, como testemunha silenciosa de uma dor que ninguém quis ouvir a tempo.
E enquanto o corpo tenta eliminar a substância — em horas ou dias — a mente continua intoxicada por memórias, culpas, vergonhas e histórias mal contadas.
O álcool pode sair do sangue em doze horas.
Da urina em dois dias.
Mas da identidade… às vezes leva anos.
Porque o problema nunca foi só a bebida.
Foi o que ela substituiu.
As outras drogas seguem caminhos semelhantes, cada uma com sua promessa específica:
umas oferecem coragem, outras desligamento, outras euforia, outras anestesia total. Mas todas têm algo em comum: não ensinam a viver, apenas a escapar.
E ninguém consegue fugir de si para sempre.
Em algum momento, o corpo cobra.
As relações adoecem.
O trabalho falha.
A espiritualidade seca.
O espelho se torna incômodo.
E então surge a pergunta que muitos evitam:
“Quem sou eu sem isso?”
Essa é a pergunta mais assustadora para quem se perdeu no caminho. E também a mais necessária.
Uma abordagem psicoteológica não aponta o dedo. Ela estende a mão.
Ela entende que tratar o abuso de drogas não é apenas retirar a substância, mas devolver à pessoa a capacidade de sentir, escolher e sustentar a própria existência.
Não se trata de condenar o dependente.
Trata-se de chamá-lo de volta à consciência.
À responsabilidade possível.
À dignidade esquecida.
Cura não é abstinência apenas.
Cura é reconstrução de sentido.
Talvez, no fundo, toda dependência seja uma pergunta mal formulada:
“Como viver com essa dor?”
E o trabalho terapêutico — psicológico e espiritual — seja ajudar a reformular a pergunta:
“O que essa dor quer me ensinar sobre mim?”
Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a garrafa continua sendo resposta.
Uma resposta frágil.
Temporária.
Cara demais.
Mas ainda assim, compreensível.
Porque ninguém se perde porque quer.
Se perde porque não encontrou outro caminho.
E toda crônica sobre drogas, se for honesta, não termina com julgamento — termina com convite.
Convite à escuta.
À responsabilidade.
À reconstrução.
E, principalmente, à coragem de parar de beber silêncio e começar, enfim, a habitar a própria vida.
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