segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nada funciona se você só se dedica “às vezes” - Artigo


 Nada funciona se você só se dedica “às vezes”

Por Abilio Machado Psicoarteterapeuta 

Há uma frase recorrente que diz: “O sucesso é resultado da disciplina diária, e não de esforços ocasionais.” Essa ideia, aparentemente simples, carrega um peso transformador. Na vida, na psicoterapia, na espiritualidade, nos relacionamentos e até na saúde física, nada se sustenta se for nutrido apenas de vez em quando.


Muitas vezes escuto em atendimentos a frase: “Mas eu tentei, só não consegui continuar.” E aqui mora a questão: não basta tentar uma vez ou outra; a constância é o que molda resultados. Assim como ninguém fica fisicamente saudável indo à academia apenas uma vez por mês, não existe saúde emocional se cuidamos dela apenas em dias de crise.


O filósofo Aristóteles já dizia: “Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco). Esse princípio revela que qualquer transformação significativa se dá pela repetição e pela construção de novos padrões.


No campo da psicologia, o psicólogo William James, considerado o “pai da psicologia americana”, afirmou: “Todos os nossos hábitos são inicialmente frágeis fios, mas que com a repetição se transformam em cabos fortes que nos prendem ou nos sustentam.” (JAMES, The Principles of Psychology, 1890). Ou seja, aquilo que escolhemos repetir se torna parte do nosso modo de viver.


Quando alguém diz: “Eu oro quando dá.” ou “Eu escrevo quando sinto vontade.” ou ainda “Eu cuido da minha saúde quando estou mal”, o resultado é inevitavelmente raso. A vida exige de nós mais do que lampejos: pede compromisso.


Na espiritualidade, o apóstolo Paulo advertiu: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos.” (Gálatas 6:9). O “não cansar” é uma chamada à perseverança, porque a colheita não vem de tentativas esporádicas, mas da persistência paciente.


É natural que a motivação oscile, que o ânimo falhe e que os resultados pareçam lentos. Mas é justamente nesses momentos que se revela o verdadeiro caráter do compromisso. Como escreveu James Clear, no livro Hábitos Atômicos (2018): “Você não se eleva ao nível dos seus objetivos, você cai ao nível dos seus sistemas.” — e sistemas só existem quando se cria regularidade.


Portanto, se o que você deseja é crescimento, cura, transformação ou até mesmo paz interior, é preciso entender: “às vezes” não muda ninguém. A constância não é uma prisão, mas uma ponte. É a estrada que conecta quem você é hoje àquilo que pode se tornar amanhã.


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✨ Reflexão final: Se hoje você se encontra no ciclo do “às vezes”, pergunte-se: o que posso escolher repetir diariamente, mesmo que em pequenas doses, que me conduza ao que desejo? Pequenos gestos, feitos com regularidade, constroem uma vida inteira.



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📚 Referências:


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001.

JAMES, William. The Principles of Psychology. New York: Henry Holt and Company, 1890.

BÍBLIA SAGRADA. Gálatas 6:9.

CLEAR, James. Hábitos Atômicos: Um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.


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sábado, 16 de agosto de 2025

Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

 



Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

Por Abilio Machado 


1. Introdução


Na linguagem cotidiana, ansiedade e depressão são muitas vezes tratadas como emoções específicas. Entretanto, tanto a psicanálise quanto a teologia apontam para a necessidade de compreender esses fenômenos de forma mais profunda. Em vez de emoções puras, podem ser vistos como resultados de desequilíbrios emocionais e espirituais, isto é, consequências de falhas ou excessos em outras emoções fundamentais, como medo, tristeza, raiva e amor.


2. A visão psicanalítica


Na psicanálise clássica, Sigmund Freud descreve a ansiedade não como uma emoção primária, mas como um sinal do ego diante de perigos internos ou externos (“Inibições, Sintomas e Ansiedade”, 1926). Para ele, a ansiedade é um estado sinalizador, um alarme de conflito psíquico entre id, ego e superego. Assim, não se trata de uma emoção independente, mas de um produto secundário do conflito entre pulsões e repressões.

Excesso do medo: gera ansiedade. O indivíduo não sente apenas medo pontual, mas uma antecipação exagerada de ameaças.

Falha no amor e no desejo de vida (Eros): resulta em depressão. A libido, incapaz de investir em novos objetos, recolhe-se ao ego, provocando autodepreciação e melancolia (Freud, “Luto e Melancolia”, 1917).

Na tradição psicanalítica pós-freudiana, Donald Winnicott amplia essa perspectiva ao mostrar que a depressão muitas vezes nasce da falha ambiental (quando o sujeito não encontra sustentação materna suficiente). Aqui também a depressão não é uma emoção isolada, mas a falência de outras emoções estruturantes.


3. A perspectiva das neurociências emocionais


Pesquisadores como Jaak Panksepp (1998), no estudo das emoções básicas, identificaram sete sistemas emocionais primários nos mamíferos: SEEKING, FEAR, RAGE, LUST, CARE, PANIC/GRIEF e PLAY. Nem ansiedade nem depressão aparecem nessa lista. Elas são estados compostos, oriundos de distorções nesses sistemas:

Ansiedade → hiperativação do FEAR (medo) e disfunção no SEEKING (motivação).

Depressão → falência prolongada do SEEKING (motivação e esperança) e hiperativação do PANIC/GRIEF (perda e tristeza).

Isso reforça que tais estados não são emoções básicas, mas configurações resultantes de excessos ou falhas emocionais.


4. A leitura teológica


Na tradição bíblica, não se encontra o termo “depressão” como emoção. O que aparece é a experiência da tristeza profunda, angústia ou desespero (ex.: Salmo 42:5 – “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?”).

A teologia cristã compreende que a ansiedade e a depressão são, antes de tudo, condições existenciais, reflexos da queda humana e do distanciamento de Deus. O apóstolo Paulo, em Filipenses 4:6, recomenda: “Não andeis ansiosos por coisa alguma”, não porque a ansiedade seja uma emoção natural, mas porque é um estado que nasce do excesso de preocupação e da falha na confiança em Deus.


Nesse sentido:

Ansiedade = falha de fé/confiança + excesso de medo.

Depressão = falha de esperança + excesso de tristeza ou culpa.


Teólogos como Paul Tillich (em “A Coragem de Ser”, 1952) explicam que a ansiedade é a experiência existencial do “não-ser”, uma sombra que se instala quando o homem se vê incapaz de confiar na transcendência. Já Santo Agostinho aponta que a alma, quando desordenada em seus amores (amor mal direcionado ou excessivo), adoece.


5. Integração psicanalítica e teológica


Tanto a psicanálise quanto a teologia convergem na visão de que ansiedade e depressão são expressões de desordens internas. Não são emoções puras, mas estados compostos:

Do lado psicanalítico: desequilíbrio pulsional, falhas no ambiente e conflitos inconscientes.

Do lado teológico: falha da fé, da esperança e do amor (1 Coríntios 13:13).

Portanto, podemos dizer que ansiedade e depressão não existem como emoções originárias, mas como estados complexos, frutos da ruptura da ordem emocional e espiritual.


6. Conclusão


Compreender ansiedade e depressão dessa maneira abre caminho para uma abordagem mais ampla:

O psicoterapeuta atua restabelecendo equilíbrio entre as emoções básicas.

O teólogo ou pastor acompanha o fiel no resgate da fé, da esperança e do amor.

Ambos reconhecem que o sofrimento humano não pode ser reduzido a uma simples emoção, mas é um estado de desequilíbrio profundo que clama por cuidado integral.



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Referências


Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.

Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade.

Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.

Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions.

Tillich, P. (1952). The Courage to Be.

Santo Agostinho. Confissões.

Bíblia Sagrada (Salmos 42, Filipenses 4:6, 1 Coríntios 13:13).


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Fé e razão: As asas da alma humana

 


Fé e razão: As asas da alma humana

Por Abilio Machado


“Fé e razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” – João Paulo II


A frase de João Paulo II não é apenas um aforismo poético; ela traduz um princípio vital para o equilíbrio humano, tanto no campo espiritual quanto no psicológico. Fé e razão, longe de serem forças opostas, são dimensões complementares que, quando integradas, permitem ao ser humano transcender os limites da visão unilateral da realidade.


Quando uma asa falha


No consultório, é possível ver como a ruptura dessa harmonia afeta a vida das pessoas.


Caso 1 – Razão sem fé

Um homem de meia-idade, altamente intelectualizado, chega com queixas de ansiedade e vazio existencial. Ele possui respostas lógicas para tudo, desmonta qualquer discurso religioso e exige evidências para cada aspecto da vida. Porém, no silêncio da madrugada, sente-se perdido e desamparado. Sua razão funciona como uma única asa batendo com força, mas que não o ergue — apenas o exaure. Falta-lhe o eixo da fé: a capacidade de confiar no que ainda não é visível, de se abrir para um sentido que não cabe apenas na prova matemática.


Caso 2 – Fé sem razão

Uma jovem, profundamente devota, procura ajuda após cair em uma rede de manipulação espiritual. Ela acreditava que cada problema era obra de forças malignas e aceitava sem questionar práticas abusivas impostas por um líder religioso. Sua fé era intensa, mas a razão estava atrofiada. Quando a “asa racional” não participa do voo, a fé pode ser sequestrada por ilusões e distorções, levando a quedas dolorosas.


O voo equilibrado


Um paciente que integrava ambas as dimensões — fé e razão — mostrou como esse equilíbrio se traduz em vida prática. Após um diagnóstico grave de câncer, ele buscou tratamento médico de ponta (razão), mas também cultivou momentos diários de oração e leitura bíblica (fé). Reconhecia a limitação humana e, ao mesmo tempo, abraçava a possibilidade do milagre. Essa postura o sustentou não apenas fisicamente, mas emocionalmente, fortalecendo a esperança e reduzindo o sofrimento psicológico.


Analogia com a aviação


Podemos imaginar o ser humano como um piloto diante de um avião:


A razão é o painel de controle: mostra altitude, velocidade, combustível, riscos e rotas seguras.


A fé é o horizonte visível além da cabine: o céu aberto que orienta o destino e dá sentido ao voo.

Se o piloto confia apenas nos instrumentos, pode perder o sentido da viagem. Se ignora os instrumentos e olha apenas para o horizonte, corre o risco de não chegar ao destino. É no diálogo constante entre painel e horizonte que o voo se mantém estável.



A contemplação da verdade


Do ponto de vista psicoteológico, a contemplação da verdade não é um instante místico isolado, mas um estado de integração: a mente compreende, o coração confia e a alma se aquieta. É quando as perguntas lógicas encontram paz nas respostas que não precisam ser plenamente compreendidas para serem verdadeiras.


Assim como uma ave precisa das duas asas para cortar o ar e alcançar altura, o espírito humano precisa da força da razão e da leveza da fé para chegar a um ponto de visão onde a vida se revela em sentido e beleza.


E talvez, nesse ponto, percebamos que a verdade não é um objeto a ser possuído, mas um horizonte para onde continuamente voamos.



Baile de Máscaras

 



Baile de Máscaras

Nunca fui bom em dançar, mas sempre gostei de observar. Naquele salão imaginário em que todos pareciam saber o compasso, descobri — tarde demais — que o ritmo não era ditado pela música, mas pela máscara.

As pessoas giravam, riam, brindavam, se inclinavam umas para as outras com sorrisos tão perfeitamente esculpidos que chegavam a brilhar mais do que o lustre central. E eu, tolo, apareci de rosto nu.


No início, pensei que seria um gesto de coragem. Afinal, para que se esconder se não havia nada a temer? Mas a cada volta pelo salão, percebia olhares enviesados, como se eu tivesse cometido um pecado de etiqueta: mostrar a pele quando todos vestiam porcelana. Foi quando a vergonha chegou — não como um tropeço súbito, mas como um peso que escorre pelo corpo e prende os pés no chão.


Eu não sabia que naquele baile, a sinceridade era a roupa imprópria. Ali, a verdade não se vestia de pele; vestia-se de fantasia. E quem ousava entrar desarmado aprendia, cedo ou tarde, que a nudez da alma é indecente para olhos acostumados a adornos.


Hoje entendo que talvez não fosse o caso de vestir uma máscara qualquer, mas de aprender a dançar com a minha própria. Porque nesse baile, para sobreviver, não basta ter um rosto — é preciso ter um disfarce.

Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.




 Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.


É uma frase curta, mas carregada de intensidade. À primeira vista, parece apenas um alerta pragmático: cuidado com o ambiente, cuidado com os predadores. Mas, para quem observa com olhos psicanalíticos, ela é muito mais profunda.


Os tubarões, nesse cenário, não são apenas animais. Eles são metáforas poderosas — figuras do Outro, do inconsciente social, daqueles medos que nos perseguem e das pressões que nos desafiam. Eles podem representar chefes implacáveis, colegas competitivos, pessoas que nos testam, ou até fragmentos internos, partes de nós mesmos que duvidam e julgam.


“Não sangue.” Eis aí a chave. Sangrar significa expor a própria vulnerabilidade. Mostramos feridas, carências, inseguranças. E a psicanálise nos ensina que, muitas vezes, essas feridas despertam reações externas que podem ser agressivas — ou que simplesmente refletem nosso próprio medo de sermos feridos. Lacan diria que o desejo exposto, o que deixamos visível, nos coloca à mercê do olhar do Outro. Freud lembraria que o superego interno, severo e exigente, já nos puniria por qualquer sinal de fraqueza.


Evitar sangrar é um mecanismo de defesa. É reprimir, conter, mascarar emoções e desejos. Funciona, sim, como proteção — um escudo. Mas há um risco: a contenção prolongada pode gerar ansiedade, culpa ou frustração, porque não lidamos com a dor ou com o medo de frente, apenas tentamos escondê-los.


Nadar com tubarões também é um teste de poder e sobrevivência social. É aprender a administrar a exposição, a escolher cuidadosamente o que mostrar. Mas é igualmente um convite à consciência: conhecer seus limites, reconhecer suas feridas e não se perder no esforço de escondê-las.


A psicanálise essencial nos lembra que não precisamos sangrar para aprender, nem nos tornar invisíveis para sobreviver. É possível navegar com segurança, equilibrando assertividade, vulnerabilidade e cuidado consigo mesmo. É nessa tensão, entre força e fragilidade, que encontramos não apenas sobrevivência, mas crescimento.


E assim seguimos, nadando com os tubarões, conscientes de nossas feridas, atentos aos predadores externos, mas sobretudo respeitando o que carregamos dentro de nós. Sangrar não é proibido; é escolher o momento certo, a forma certa, e transformar a vulnerabilidade em consciência.


Psicoterapeuta Abilio Machado


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional


 Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional

por Abilio Machado

A psicologia brasileira atravessa um momento de inflexão. Ao lado de avanços no reconhecimento de minorias e no combate a preconceitos, cresce uma tendência que preocupa: a incorporação explícita de pautas ideológicas na própria identidade profissional, como no caso dos chamados “psicologues clíniques”. A mudança não é meramente estética ou linguística; ela sinaliza uma redefinição de prioridades que pode colocar em risco o compromisso da profissão com a objetividade, o pluralismo e a base científica que a sustenta.

Pesquisas internacionais mostram que essa tensão não é exclusiva do Brasil. Em 2021, um levantamento da American Psychological Association (APA) identificou um aumento significativo na pressão para que psicólogos adotem terminologias e posturas políticas específicas, sob pena de serem vistos como antiéticos ou preconceituosos (APA Task Force on Addressing Systemic Racism, 2021). Embora o combate ao preconceito seja um pilar ético, o relatório alerta para o risco de “reduzir a prática psicológica a um instrumento de educação política, enfraquecendo seu papel como ciência baseada em evidências”.

O caso do 12º Congresso Nacional de Psicologia exemplifica esse deslocamento. O evento, tradicionalmente dedicado à atualização técnica e ao debate científico, incluiu a apresentação de um rap com forte carga ideológica, transformando um espaço profissional em palco de militância. Episódios assim reforçam a percepção de que há uma tentativa de uniformizar o pensamento dentro da categoria — algo que contraria a própria Resolução CFP nº 010/2005, a qual estabelece que a atuação do psicólogo deve respeitar a diversidade e a liberdade de expressão, sem impor convicções pessoais.



No campo internacional, exemplos semelhantes já geraram consequências concretas. No Reino Unido, o relatório Cass Review (2022), sobre serviços de saúde para jovens trans, apontou que pressões ideológicas estavam influenciando diagnósticos e condutas terapêuticas, em detrimento de avaliações clínicas cuidadosas. A principal autora, Dra. Hilary Cass, advertiu que “a polarização ideológica compromete a segurança e a qualidade do atendimento, além de afastar profissionais que discordam da narrativa dominante”.

O impacto dessa tendência vai além dos muros da profissão. Quando a psicologia é percebida como militância disfarçada de ciência, sua credibilidade pública sofre erosão. Dados do Pew Research Center (2022) mostram que, nos Estados Unidos, a confiança na psicologia como ciência caiu de 59% para 48% em uma década, com parte significativa dos entrevistados apontando “politização” como causa dessa desconfiança.

No entanto, a adoção do termo ainda encontra resistências — tanto dentro quanto fora da categoria profissional. Críticas vão desde a dificuldade de adaptação à linguagem neutra até o questionamento sobre a real efetividade dessa mudança no enfrentamento de preconceitos estruturais. Parte da comunidade argumenta que a transformação social vai muito além da nomenclatura, exigindo políticas públicas, formação acadêmica e práticas clínicas comprometidas com equidade, mas o que seria esta equidade senão a abertura de diálogo e aceitação das diferenças, mas quando o próprio discurso feito vem impregnado de ofensas e ameaças na destruição dos principais fundamentos sociais, religiosos, familiares em que afetam diretamente a dinâmica das relações, qual seria o melhor caminho?

É claro que inclusão e acolhimento são valores essenciais. Mas quando a identidade pessoal do profissional — seja de gênero, política ou cultural, não esquecendo a religiosa — passa a determinar linguagem, diagnóstico e conduta clínica, corremos o risco de substituir a escuta plural por um catecismo ideológico. O verdadeiro desafio é manter um equilíbrio em que a diversidade seja respeitada, mas sem que a ciência se torne refém de modas e pressões políticas.


A psicologia, enquanto ciência e profissão regulamentada, não pode se dar ao luxo de ser conduzida pelo pêndulo das modas ideológicas. A empatia e o acolhimento são pilares inegociáveis, mas não devem se confundir com a abdicação da objetividade e da autonomia crítica. Quando a identidade pessoal do psicólogo(a/e) passa a ditar a forma como ele conduz a teoria, a técnica e até a linguagem, abre-se um precedente perigoso: o de transformar a clínica num espaço de militância e catequese ideológica, em vez de um ambiente de investigação e cuidado fundamentado.

O desafio não está em proibir palavras ou identidades, mas em resgatar o eixo da psicologia como campo científico que dialoga com a sociedade sem se tornar refém de agendas particulares. A profissão só se fortalece quando consegue integrar diversidade sem abrir mão da liberdade de pensamento — algo que, no cenário atual, parece cada vez mais ameaçado.

Se a psicologia abdicar desse equilíbrio, não será apenas um termo como psicologue que estará em jogo. Será a própria capacidade da profissão de exercer sua função primordial: compreender e cuidar da mente humana com objetividade, ética e liberdade de pensamento.

Referências:

  • American Psychological Association. Task Force on Addressing Systemic Racism. APA, 2021.

  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, 2005.

  • Cass, H. Independent Review of Gender Identity Services for Children and Young People (Cass Review). NHS England, 2022.

  • Pew Research Center. Public Trust in Scientists Has Dropped Since the Pandemic. Washington, 2022.

sábado, 2 de agosto de 2025

A ansiedade de ajudar que estraga tudo!

 



Embora bem-intencionados, às vezes nem tanto, mães e pais acabam prejudicando os filhos ao envolvê-los nos conflitos, até mesmo por falta de informação, já que estão acostumados com uma sociedade em que o litígio faz parte da vida cotidiana e nunca foram alertados sobre os efeitos nocivos de tais abordagens destrutivas dos conflitos aos filhos ou sobre o que eles podem fazer para minimizá-los.


Muito comuns são os casos em que os pais falam mal um do outro para os filhos e os usam como mensageiros ou espiões, discutem na frente deles, dificultam o contato dos filhos com a mãe ou o pai pelos mais variados motivos, induzem os filhos a tomar partido, sem perceber que essas condutas os deixam ansiosos, estressados, tristes, aborrecidos e prejudicam o desenvolvimento emocional de seus filhos.


Esta realidade precisa ser alterada. E as mudanças devem ocorrer como parte da formação de uma cultura de realização de necessidades e interesses de todos que vivem em família. A família e todos seus membros precisam adequar suas condutas à nova formatação da família após a profunda mudança na relação dos pais que o divórcio acarreta.


Nesse novo momento – após o divórcio – a família pode, por muitos anos, sofrer com conflitos mal administrados nos quais prevalece uma cultura de brigas e antagonismos ou pode também aprender a lidar com o novo contexto da família fazendo prevalecer uma cultura de paz.


Naturalmente, o divórcio consiste em grande desafio emocional para os pais e filhos e, nesse momento delicado, é necessário o engajamento de todos para que essa cultura da paz possa ser duradoura.


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Aos poucos tudo muda

 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, n...